A guia do ITCMD chega com uma base muito superior ao valor que a família imaginava para o imóvel. Em alguns casos, o número veio de uma referência fiscal. Em outros, a Fazenda rejeitou o valor declarado e fez uma avaliação própria. A diferença pode aumentar o imposto e comprometer o caixa necessário para concluir a doação ou o inventário.
O contribuinte pode contestar a avaliação. O resultado, porém, depende de um ponto objetivo: demonstrar por que o valor adotado não representa o mercado na data relevante. Uma discordância sem documentos não basta. A diferença pode nascer de um erro de área, da comparação com imóveis reformados ou do uso de uma data que não coincide com o fato gerador. Em outros casos, a estimativa alta corresponde ao mercado e a família precisa rever sua expectativa. A documentação separa essas situações.
A análise começa com três perguntas. Quem definiu o valor? Qual método sustentou a estimativa? A legislação do estado e o procedimento em curso permitem qual forma de defesa? Essas respostas indicam se a família precisa corrigir uma declaração, impugnar um arbitramento, contestar um laudo judicial ou avaliar a restituição de um pagamento já feito.
Valor alto pode ser questionado, mas a base não é escolhida livremente
A Lei Complementar 227/2026 define o valor de mercado do bem ou do direito transmitido como base de cálculo do ITCMD. O estado onde se situa o imóvel tem competência para exigir o imposto. A lei estadual disciplina alíquota, declaração, prazos e procedimento.
Valor de mercado corresponde ao preço que o imóvel alcançaria em uma negociação normal, consideradas suas características na data do fato gerador. Na transmissão por morte, a data do óbito tem peso central. Na doação, importa a data do ato. Uma avaliação feita meses ou anos depois precisa reconstruir as condições daquele momento.
Famílias que ainda precisam entender a estrutura do tributo podem consultar o conteúdo sobre como funciona o ITCMD. Essa base ajuda a separar o valor do imóvel, a parcela transmitida, a alíquota e o imposto resultante.
A referência usada no IPTU, no ITR ou em outro cadastro pode participar do cálculo conforme a lei local. Ela não transforma qualquer quantia em verdade incontestável. O contribuinte também não pode escolher o menor número disponível sem demonstrar sua relação com o mercado.
O que o tema 1.371 do STJ exige do arbitramento
Em dezembro de 2025, a Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça julgou o Tema Repetitivo 1.371. O tribunal reconheceu que o artigo 148 do Código Tributário Nacional autoriza a Fazenda a arbitrar o valor venal do imóvel para calcular o ITCMD.
A tese condicionou o poder do fisco de substituir a declaração por um valor maior. Segundo a tese firmada pelo STJ, a autoridade deve instaurar procedimento prévio, regular e individualizado. O arbitramento cabe quando as declarações, informações ou documentos do contribuinte forem omissos ou não merecerem fé para o lançamento.
A administração também precisa demonstrar que o valor encontrado está fora do mercado. O contribuinte deve receber ciência dos fundamentos e oportunidade para apresentar defesa e prova. Esse equilíbrio protege as duas partes: a Fazenda pode corrigir uma declaração sem suporte, e a família pode enfrentar as premissas usadas no novo cálculo.
O precedente tem alcance nacional porque interpreta uma norma geral do Código Tributário Nacional. A lei de cada estado continua definindo o caminho administrativo, os prazos e os documentos. Por isso, a leitura da notificação e da norma local vem antes da escolha da medida.

Antes de impugnar, descubra como o valor foi formado
A família precisa localizar a origem exata da base. A guia pode reproduzir o valor declarado pelo próprio contribuinte, aplicar um piso previsto em lei, usar uma referência automática ou refletir um arbitramento individual. Cada cenário pede uma resposta diferente.
Confira também se a Fazenda aplicou o valor ao imóvel inteiro ou apenas à parcela transmitida. Meação, quinhão, nua-propriedade e usufruto podem alterar a proporção submetida ao imposto conforme o fato e a lei local. Uma base imobiliária correta ainda pode gerar cálculo equivocado quando o sistema usa fração diferente daquela registrada na escritura ou na partilha.
Reúna a declaração enviada, a guia, a notificação, a memória de cálculo e os documentos que acompanharam o protocolo. Procure a data da avaliação, o método, os imóveis usados como comparação e os ajustes realizados. Se o sistema mostra apenas o resultado, peça acesso ao processo e aos critérios que o produziram pelos canais previstos no estado.
Alguns sinais merecem atenção:
- comparação com imóveis de bairro, padrão ou área distintos;
- uso de metragem que não coincide com a matrícula ou com a situação física;
- desconsideração de conservação, ocupação, restrição urbanística ou dano comprovado;
- referência atual aplicada a uma sucessão ou doação antiga;
- ausência de explicação para a rejeição dos documentos apresentados.
Um desses pontos não derruba o lançamento por si só. Ele orienta a contraprova. A defesa ganha consistência quando liga cada erro indicado a um documento e mostra o efeito daquela premissa sobre o valor final.
O prazo exige cuidado. Cada estado organiza seu processo administrativo e pode estabelecer etapas curtas para impugnação ou recurso. A família deve conferir a data da ciência antes de encomendar estudos demorados. Se o prazo estiver em curso, o profissional pode avaliar como preservar a defesa e complementar a prova dentro das regras aplicáveis.
Quais documentos tornam a contestação consistente
Um laudo técnico costuma ser a peça mais útil quando a controvérsia envolve características que uma tabela não capta. O avaliador deve identificar o imóvel, a data de referência, o método, as amostras e os ajustes. Um documento que apresenta apenas outro número troca uma afirmação por outra.
O avaliador precisa explicar a fonte dos dados e a escolha das amostras. Escrituras recentes, registros de transações, informações de agentes do mercado e pesquisas de oferta podem compor o estudo, desde que o profissional trate cada dado de acordo com sua confiabilidade. Negócios entre parentes, vendas urgentes e anúncios antigos pedem cautela porque podem não retratar uma negociação normal.
A matrícula do imóvel confirma área, titularidade, ônus e descrição registral. Cadastro municipal ou rural, planta, fotos e relatório de vistoria ajudam a mostrar a condição física. Orçamentos podem dimensionar defeitos ou obras necessárias, desde que guardem relação com o estado do bem na data examinada.
Amostras de mercado também exigem seleção. Apartamentos no mesmo bairro podem ter padrão, idade e vagas diferentes. Imóveis rurais variam por acesso, aptidão, benfeitorias e restrições ambientais. Anúncios indicam preço pedido, não comprovam preço de fechamento. O laudo deve explicar como tratou essas diferenças.
Considere um imóvel urbano fechado por anos, com infiltração e instalações comprometidas. A Fazenda compara o bem com unidades reformadas do mesmo edifício. Fotos antigas, laudo de engenharia, atas do condomínio e orçamentos datados podem sustentar ajustes na avaliação. A autoridade ainda examinará o método e poderá discordar. A documentação permite um debate verificável.
Ônus ou ocupação também não geram desconto automático. A análise deve identificar a natureza jurídica e o efeito econômico de usufruto, locação, invasão, indisponibilidade ou restrição de uso. A família deve evitar percentuais genéricos sem método.

A via depende da fase do inventário e da lei estadual
No procedimento administrativo, o contribuinte apresenta a impugnação à autoridade indicada na notificação. A defesa deve observar prazo, forma, documentos e eventual necessidade de garantia. Alguns estados oferecem pedido de avaliação, revisão da declaração ou recurso próprio. O nome e o efeito de cada medida variam.
No inventário judicial comum, o juiz pode nomear perito para avaliar os bens. O artigo 635 do Código de Processo Civil concede às partes 15 dias para se manifestarem sobre o laudo. Se o juiz acolher a impugnação ao valor, poderá ordenar que o perito retifique a avaliação.
O arrolamento sumário segue outra lógica. O juiz homologa a partilha sem decidir questões relativas ao lançamento ou ao pagamento do ITCMD. A Fazenda faz o lançamento administrativo e pode apurar diferença em procedimento próprio. A contestação tributária ocorre na via adequada, fora da discussão simplificada da partilha.
Inventário extrajudicial e doação por escritura também dependem dos sistemas e atos do estado. O tabelião confere os documentos exigidos, mas não substitui a autoridade fiscal no julgamento da impugnação. A família precisa coordenar a defesa tributária com o cronograma do ato.
Uma medida judicial pode ser cabível quando a via administrativa não corrige ilegalidade ou quando existe risco que exige tutela do Judiciário. A escolha depende do processo, da prova e do efeito pretendido. O tema não admite uma ação-padrão para todos os casos.
E se o ITCMD já foi pago?
O pagamento não confirma a correção da base. Se os documentos demonstrarem recolhimento indevido, a legislação pode admitir restituição ou revisão. A família precisa identificar o valor pago, a data, o contribuinte, a decisão que fixou a base e o prazo aplicável.
O artigo sobre ITCMD pago a maior aprofunda essa etapa. A administração ou o Judiciário precisam reconhecer o indébito tributário antes de qualquer recuperação.
Perguntas frequentes
Posso usar uma avaliação feita depois do óbito ou da doação?
O laudo pode reconstruir o valor da data relevante, desde que exponha fontes, método e ajustes temporais. Uma estimativa baseada apenas nas condições atuais pode distorcer o mercado existente no fato gerador.
Um imóvel ocupado ou com usufruto vale menos para o ITCMD?
A resposta depende da natureza do direito, da legislação estadual e do efeito econômico comprovado. A simples existência de ocupante ou gravame não autoriza aplicar desconto genérico.
A impugnação suspende a cobrança?
A apresentação da defesa produz os efeitos definidos pela lei e pelo procedimento aplicável. O contribuinte deve confirmar se a medida suspende a exigibilidade, evita multa ou exige garantia antes de contar com esse resultado.
A contestação começa pela formação do valor
Método, data e documentos mostram se a avaliação merece revisão. Se a base do ITCMD parece afastada do mercado, o Dr. Cláudio pode examinar a notificação, a prova do imóvel e a fase do inventário para identificar a medida compatível com o caso.







